quinta-feira, 4 de março de 2010

David Cameron no TED

Eu ia fazer esse segundo post sobre certos programas de televisao que vi, mas apareceu outro assunto que achei mais prioritário. Tudo começou quando minha namorada me falou sobre uma palestra que o David Cameron deu pro TED. Pra quem não sabe, TED (Technology, Entertainment, Design) é um organização sem fins lucrativos que distribui palestras sobre os mais diversos assuntos (não somente sobre tecnologia, entretenimento e design, como o nome sugere). Muitos nomes conhecidos já apareceram por lá ( Bill Clinton, Bill Gates, Jamie Oliver, Richard Dawkins, Al Gore) assim como muitos que poucos além das próprias familias já ouviram falar. :-) A idéia do TED é uma que tenho simpatizado desde o começo: Ideas Worth Spreading (Idéias que valem a pena espalhar), e já tenho o site deles não só no bookmark do meu micro, mas da minha cabeça também, pois é um ótimo ponto de referência. Mas como nada é perfeito, ainda mais em se tratando das criações humanas, tem algumas palestras que fazem disparar um alarme interno. Ainda mais quando mudanças são propostas com o propósito de deixar tudo na mesma, que foi exatamente isto que senti quando vi as idéias exposta pelo David Cameron.
Como vou comentar a palestra dele, se quiserem olhar o vídeo antes de continuarem lendo para tirarem suas próprias conclusões sem serem influenciados por minhas palavras carregadas, eu recomendo extremamente. E fico grato se voltarem aqui para deixarem opiniões sobre o video, e sobre meus comentarios. :-)

Pra começar, o nome da palestra é The next age of government (A próxima era do governo). Pra alguém que propõe mudanças, progresso e evolução, se manter em um sistema adotado desde o tempo das cavernas não me parece atingir nenhum desses objetivos. Só ao observar o nome, já pode-se notar que ele propõe uma mudança na carroceria, não no motor. Ainda vamos estar rodando com diesel, poluindo e destruindo o ambiente, enquanto tiramos a carrenagem de um fusca e colocamos de uma BMW. E diziam que os índios eram ingênuos quando chegaram os invasores.
Logo após quebrar o gelo com umas piadas, ele mostra um numero enorme na tela (32 Trilhoes de dolares), que é o débito público global. E daí ele faz uma coisa esperta, mas que poucas pessoas notam: ele leva o assunto para o lado da falta de dinheiro global, e de como politícos podem usar menos dinheiro pra melhorarem as coisas. Eu digo que ele fez algo engenhoso por um simples motivo: depois de assustar o público com aquele numero assombroso, ele da foco em como se pode diminuir ele com o menor impacto no servico prestado para o publico. Oras, ao meu ver isto é tratar a consequência, não a causa. Porque ele não explica como todo esse débito foi adquirido? Ou quem deixou o número chegar nesse nivel alarmante? Talvez por ter sido os proprios governos, um dos quais ele tenta ser parte a algum tempo? Espero que você, leitor, não imagine que o débito de cada pessoa entra nesse montante, certo? Muitas pessoas acham que por se dizer que é público, é de todas as pessoas, mas nessas contas não entram dividas de cartão de crédito pessoal, conta pessoal negativa em banco ou dívidas entre amigos. Não, o público no débito público diz respeito ao governo. E só. Se não entenderam muito bem, aqui tem uma explicação mais elaborada tirada do filme Zeitgeist.
Bom, depois dessa desviada de foco, ele continua, dizendo que se usarmos dinheiro para medirmos nossa qualidade de vida, ou até mesmo a situação do pais, vamos estar fazendo um serviço mediocre, pois nossa vida é muito mais do que um numero. Por mais que eu concorde com ele sobre este ponto, me doí ver alguém usando este argumento para justificar a necessidade de se ter governo. Ainda mais quando ,novamente, de forma engenhosa, ele mostra um logo de "Power to People" (Poder para Pessoas). Ora, se a idéia dele é de dar poder para as pessoas, para que precisariamos de um governo? Ele fala de reforma da política e do governo, mas em nenhum momento ele sequer cogita o abandono da forma piramidal de sociedade que estamos vivendo. Se é para manter a forma de senhores/escravos, então para que fazer outra reforma? Para mascarar por mais 300 ou 500 anos que continuamos aprisionados em correntes? Porque não se iludam, o que estamos vivendo em nosso dia a dia é uma forma de escravidão. So porque não temos correntes e relhos fisicos batendo em nossas costas, não quer dizer que estejamos livres. Quantos não se sentiram assim por vez ou outra ao longo de suas vidas? E qual a solução que esta constantemente nos bombardeando quando o assunto é abordado? Tudo sempre foi assim e sempre será, é mais facil se acomodar e aceitar do que tentar mudar a sociedade. Meio conveniente, não?
Uma das armas que ele sugere para dar poder as pessoas é algo que eu também aplaudo de pé: passar informações. Por enquanto ele ainda esta na sugestão, o que me pegou de surpresa ate, mas mais pra frente ele logo da a pisada na jaca que eu devo confessar que estava esperando. Mas continuando com o que ele fala, logo ele mostra junto com o logo do Poder para Pessoas, outro de "Understanding of People" (Compreendendo as pessoas). E dai é onde eu dou uma gargalhada, pois a primeira coisa que ele faz é admitir que o governo até o presente momento tenta modificar as pessoas para o que querem, ao inves de se adaptarem para entenderem cada um.
Curiosamente, por falar que agora os políticos estao comecando a mudar sua visão parece tornar tudo bem, pois isto tira o foco do fato, que ainda acontece apesar do plano ser diferente para o futuro. Ou seja, ainda somos regidos por leis de pessoas que veêm o diferente como errado, e apesar da idéia ser mudar no futuro, nada esta sendo feito agora: leis não estão sendo revistas, pessoas aprisionadas por leis incoerentes não estão sendo soltas e por ai vai. E não sei porque, algo me diz que quando essas pessoas com visões diferentes subirem ao poder, essas revisões e perdões misteriosamente tambem não vão acontecer sem um empurrão massivo do publico, o que quer dizer que neste ponto não existira uma real mudanca.
Ele segue, então, dizendo que agora é o momento ideal para acontecer essa mudança, e se dispõe a dar uma rápida aula de historia para explicar o porque. Nessa aulinha de história, ele separa nossa civilização em 3 períodos: pré-burocrático (goveno local, ou em cidades), burocrático (governo central ou em países) e pós-burocrático (governo das pessoas ou...;-)). Ao dizer que estamos vivendo em um momento pós-burocrático, ele faz o ponto dele de que as pessoas estao mais conectadas e da exemplos de que governos podem ser derrubados com o teclar num celular, coisa que era impossível no passado. Ao ver esse pedaço, foi onde notei o quão persuasivos são os governantes e o quanto precisamos aprender a pensar por nos mesmos para não cair em arapucas.
Alguém mais notou que as 2 primeiras partes da separação da civilização que ele fez fazem referência aos governo, e a terceira (que ele propõe ser o futuro) é referente as pessoas como um todo, como uma comunidade, como uma sociedade, mas sem definir o limite? É impressão minha ou ele evitou a todo custo falar de um unico governo global? Ele deu enfâse que o poder vai ir para as mãos do publico, mas em nenhum momento ele diz que não vai ter um governo por trás disso tudo. Pelo contrário, ele segue dando exemplos de como o governo foi "melhorando" com o tempo, consertando os "problemas" da sociedade. E novamente ele diz que, apesar do resto da sociedade ter acompanhado a revolução da informação, o governo esta atrás. Não sei pra vocês, mas isso pra mim é um tiro no pé, pois como ele pode garantir que uma estrutura grande e pesada como essa vai se tornar robusta depois de mais de 3.000 anos sem sucesso? Segundo ele, existem 3 maneiras de governos se atualizarem e dar "realmente" poder para pessoas: transparência, escolhas e prestação de contas.
Em transparência, o foco fica em tornar os gastos do governo mais acessíveis. O exemplo que ele pega é do Missouri, onde o governo criou uma página na Internet para mostrar todos os gastos que está tendo. Ele segue prometendo que se o partido dele ganhar na Inglaterra, vão criar uma página parecida onde todo gasto acima de 25.000 libras serão mostrados. Não é curioso que pra um cara que ta falando de transparência, logo na primeira promessa tem uma exceção? Porque 25.000? E porque só os gastos? Será que ele acha que não é de interesse do publico saber quanto o governo está arrecadando também? Será que a margem é 25.000 pra não acontecer mais nenhum escandalo de gastos, já que o partido dele tambem foi atingido? E sera que quando colocarem os contratos que o governo faz com empresas, irão colocar tambem o nome dos donos e acionistas delas? Ou será que isso é transparente demais?
Em escolhas, não sei se foi impressão minha, mas pareceu muito com transparência. Ele falou de todas as informações que vão estar disponíveis sobre os serviços prestados pelo governo, mas onde esta a diferença nas escolhas, ja que os serviços continuarão os mesmos? Não notei ele falando nenhuma vez que vai haver alguma mudança nos servicos oferecidos, apenas nas informações que serão distribuidas. Um exemplo é: se o governo oferece dois ou três tipos de tratamento para uma doença, com o que ele sugere, tu vais poder saber onde eles são melhor aplicados, não que possam existir outras quatro ou cinco outras formas. Mostrar melhor o que esta sendo feito não aumenta a gama de opções, se elas são restritas por leis ou regulamentos.
Na prestação de contas, o exemplo que ele mostrou é de Chicago, onde a polícia tem um mapa online mostrando as áreas afetadas por crimes. Dai ele sugere que as pessoas vão atrás desse mapa e cobrem da polícia uma resolução para os problemas. Fiquei me perguntando: De que adianta o público correr atrás da polícia, se quem distribui os recursos para eles é justamente o governo? Ele não deveria sugerir que cobrassemos mais dos governantes? Afinal, quem recebe o dinheiro dos impostos e decide como vão ser gastos são exatamente eles. E isso é outra coisa: esse sendo o trabalho deles, pra que precisamos de governantes se estes nos dizem que precisamos agir mais? E porque raios ele não mostrou o mapa da polícia de Londres?
Depois desses três topicos foi quando eu lembrei que ele tinha falado de espalhar a informação lá no começo. E daí tive que pausar e olhar novamente esse pedaço. E mesmo olhando mais de uma vez, não encontrei em nenhum momento nenhuma explicação de onde usar efetivamente as informacoes restritas que ele promete liberar. Sem dar informações suficientes, como ele espera que iremos agir? E quando formos agir, baseados em informações incompletas, que tipo de diferença fará? De que adianta ir até uma estacão policial e cobrar mais fardas nas ruas, como ele sugere, se quem controla gastos é o governo? Não estaremos criando somente mais confusão e stress, principalmente praqueles que tem como função nos ajudarem? O mesmo se aplica aos hospitais e médicos, bombeiros e até transporte. De que adianta ficarmos contra eles, enchendo seu saco, se quem controla o dinheiro é o governo?
Enfim, logo após ele volta a falar sobre "entender as pessoas", onde o primeiro exemplo é como tornar as pessoas mais eficientes no consumo de energia. A tela mostra uma conta onde mostra o quanto a pessoa gasta comparado com a comunidade ao redor dela e o ideal. É uma forma interessante de se usar competição para conseguir isto, mas como vai influenciar aqueles que não são mais crianças? Será que eles vão realmente se importar de serem comparados com os amiguinhos ao redor da quadra? Também acho que precisamos diminuir o consumo (não só de energia, mas de tudo que é material), mas acho que precisamos de conscientização, não de comparação. Porque se formos comparar, porque não nos comparar com animais irracionais, pois eles também tem lideres e governantes...
E dai acontece o que me fez praticamente cair da cadeira. Em uma única frase, ele FAZ a comparação de burros de carga e anula tudo o que ele falou ate então. Citando-o "All the proof from America is, actually, if you pay people to recycle, if you give them a carrot rather than a stick, you can transform their behavior.". Pra quem não entendeu, deixem eu colocar meus 2 pontos:
Primeiro: ele sugere pagar as pessoas pra mudarem seu comportamento. Ora, todo o discurso dele não comecou exatamente porque a dívida do governo é grande e ele ia apresentar respostas sem gastar muito mais dinheiro? Quanto ele imagina que vai ser pago, ou pra quantas pessoas, que não vá afetar os cofres públicos? Se for a quantia baixa que ele deve imaginar, será que irá realmente fazer a diferenca que ele quer em reciclagem? Eu imagino que muitos não vão se prestar a ir para um centro de reciclagem se forem gastar mais com combustível do que receber por la...
Segundo: "if you give them a carrot rather than a stick" (se der para eles cenouras ao invês de varinhas). Não sei para vocês, mas isso para mim é uma alusão a um animal de carga, que ao ter empacado depois de ter seu lombo surrado por uma varinha de marmelo, agora é oferecido uma cenoura para talvez continuar o servico. E antes que alguém chegue e me diga que pode ter sido apenas uma expressão, eu quero lembrar que os discursos feitos por politicos passam pelas mãos de um time, que corrigem e alteram de uma forma que atinja mais o publico. Eu não tenho mais a ilusão de que isso não foi um sarcasmo, e vocês?
A conclusão começa com uma citação da famosa frase de JFK "Ask not what your country can do for you; but what can you do for your country" (Não pergunte o que seu pais pode fazer por você, mas o que voce pode fazer pelo seu país). Embora eu respeite JFK, acho que essa frase ficaria mil vezes melhor se no lugar de "país" fosse colocado "mundo". E por mais que passe um sentimento nobre, como o David sugere, eu acho que isso é um lema de escravos felizes, não de pessoas livres.
Sobre o discurso do Robert Kennedy, eu só trocaria o GDP (PIB) por dinheiro em geral. Ainda mais quando o David finaliza dizendo que a idéia de 40 anos atrás ficaria mais fácil de ser realizada se combinarmos o que temos hoje (informações) para dar poder para as pessoas. Curioso que não se fala de abolir o dinheiro, justamente o maior separador de classes do mundo, não?
:-)

Um comentário:

  1. Realmente o video chega a ser engracado....concordo com varios pontos q falou, mas vou deixar meu ponto de vista aqui tb....
    Primeiro sobre o Cameron - ele sabe falar bem, assim como o Tony Blair, o q ja o destaca do atual Primeiro Ministro. Porem, seu discurso ficou muito parecido como o de qualquer diretor de uma empresa qunado esta decide investir em reciclagem e outras alternativas de recursos, o que nada mais sao do que o fluxo com que a economia esta se direcionando. O David falou bastante mas nada novo, a comecar pelo nome do discurso q nao foi compativel com o que fora falado. O conceito de 'Poder do Povo' so fez mudar o foco para o que as pessoas podem fazer, no lugar de falar do que eles realmente farao de novo. A ideia de transparencia e de escolhas nao eh nova, mas a primeira so eh lembrada pelos governadores em periodos que antecedem eleicoes, o que inclui, como vc mesmo disse, alegacoes para o partido dele tb. Deve ser por isso que ele mencionou tao rapido o problema de corrupcao no comeco, e nao falou mais do assunto. Quando falou de eletricidade me fez lembrar um programa da BBC que mostrava a dificuldade de um grupo em colocar cata-ventos em uma regiao do UK, mostrando que as opcoes mais verdes nao sao bem aceitas pela sociedade e leis locais, mas nao ouvi-lo dizer nada que mudara tal fato. Outros exemplos sao o fato de cada vez mais aumentarem as multas pras pessoas que enchem seus latoes de lixo, e a comformidade das pessoas em nao pegar mais um lixo reciclavel...deixando o latao encher e o lixo sem ser retirado, ja que com as multas vem tal punicao . Em relacao a prestacao de contas, ele nao so esqueceu Londres, como tb esqueceu o fato que a policia daqui ja tem um servico chamado 'Liberdade de Informacao', onde qualquer pessoa pode ligar pra policia e ficar sabendo de qualquer crime que acontece na sua area. Por fim, outro ponto interessante foi quando David falou de boca cheia do exercito e dos Estados Unidos, o que recentemente David ja anda mudando seus discursos por perceber que ser aliado dos Estados Unidos nao guarante nenhum voto, muito pelo contrario.

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