Ultimamente eu tenho visto que em muitos lugares ainda confundimos chance com oportunidade. Por exemplo, já vi amigos meus dizendo que as classes mais pobres estão na situação que estão por não aproveitarem as oportunidades, e assim sendo, mereciam continuar na mesma situação. Com um pouco mais de conversa, percebi que esta definição vinha justamente do sistema, que nos bombardeia constantemente com noções que, francamente, são totalmente distorcidas. Um dos pontos onde mais vejo isto é justamente no caso de chance contra oportunidade, onde nossos conceitos usados no dia-a-dia não fecham com o que temos no dicionário.Para começar, então, vamos relembrar a definição, pro caso de alguns já terem esquecido. Chance é quando se tem uma probabilidade de um evento acontecer ou não. Um exemplo clássico de chance é a loteria, onde por mais bilhetes que se comprem, depende da sorte da pessoa ganhar ou não. Ou seja, a cada bilhete que ela compra, ela tem mais chances de ganhar o prêmio. Oportunidade, no entanto, é um pouco mais complicado de se definir. A Wikipedia define como sendo a "qualidade do que é oportuno". Dai quando se entra em oportuno, diz que é "aquilo que se faz facil ao momento". Pra quem não pegou, oportunidade, então, é a saída mais fácil para o problema, a primeira que a pessoa vê e tem forças de agarrar. Podemos dar o exemplo de oportunidade então, como uma pessoa que está morrendo de sede no deserto e chega a um oásis. Ela tem a oportunidade de ficar e aproveitar do lugar, ou pode continuar seguindo. Independente do que passou na cabeça dela naquele momento, só o tempo vai dizer qual decisão é a mais sábia.
Bom, com as definições mais frescas em nossa cabeça, fica mais fácil analisarmos certas situações em nosso mundo. Vamos ver primeiro o tópico que estava debatendo com meus conhecidos: educação. Para começar, podemos ver um clássico do sistema brasileiro, o vestibular. Muita gente tem a ilusão de que ele se trata de uma oportunidade, quando na verdade é uma questão de chance. Pode-se ver pelo número de vagas por candidato, que é sempre menor do que o requerido. Apenas por este fato, já se caracteriza como chance, pois depende das probabilidades de ter alguém que estudou mais que você. Ou seja, precisa de sorte para passar, não apenas competência. Para aqueles que ainda não conseguem ver isso, me respondam uma pergunta: se existissem 50 vagas, e 100 alunos tirassem a mesma nota máxima, quantos entrariam? Se algum deles ficou de fora, seja por sorteio, ordem alfabética ou qualquer outro filtro, já não é mais oportunidade, é chance.
Continuando, podemos analisar da mesma forma o sistema de ensino como um todo, desde a pré-escola até o segundo-grau (acho que agora se chama ensino médio). Muitos acham que as pessoas em escola pública tem as mesmas oportunidades daqueles em escola particulares. Descobri que isso até é verdade, mas normalmente fora do Brasil. Neste caso, o que acontece quando professores mal-remunerados, trabalhando em condições precárias, em prédios mal conservados e com material ultrapassado, quando existe, vão dar aulas? Apesar de terem existido melhoras no últimos anos, elas não são generalizadas e estão acontecendo muito lentamente. Acho que posso me arriscar a dizer que elas acontecem a cada quatro anos ou dois, não acham? Assim sendo, quais são as chances de alguém que passa por um ensino desses alcançar os mesmos patamares que sua contra-parte em uma escola particular? Vejam bem, não estou dizendo que não existem, estou dizendo que são poucos, pois as chances são baixas e não existem oportunidades para todos.
Ai entramos em outro ponto que ouço muito seguido. Por existirem escolas públicas, certas pessoas consideram que existem oportunidades para todos. Mas vamos analisar a vida do pessoal de classe mais baixa, para ver se realmente são oportunidades ou se são chances. Em um mundo voltado para o consumo, onde o status social, aparência e soluções rápidas prevalecem sobre os ideais, carater da pessoa e respostas mais analisadas, o que podemos esperar de uma classe que tem um mínimo de condições de estudo? Para alguém nesta realidade, um emprego fixo não oferece as mesmas oportunidades de enriquecimento do que outras opções, como drogas e assaltos. Além disso, para se ter um emprego é preciso ter um certo nível de escolaridade e, dependendo do caso, certas vestimentas específicas, que por não serem oferecidas tão livremente assim, servem de empecilho para alguns. Ainda mais se considerarmos que desde cedo é mais necessário estar na rua trabalhando para ajudar em casa, do que em uma escola. Atualmente, quase metade das adolescentes entre 15 e 19 anos e que recebem menos de meio salário mínimo tem filhos, e os motivos apresentados pelos jovens para tal feito demonstram que as mensagens passadas pela sociedade para eles são alarmantes e totalmente contraditórias. Eles apenas propagam os problemas e desentendimentos que temos já presentes em nossa sociedade, não solucionam nem melhoram nada, na realidade.
O ponto em que eu vejo que discordo com a maioria é o de como solucionar o problema. Muitos ainda aplaudem a idéia de inventar mais leis e criar mais policiamento para punir o que vemos como comportamento errôneo. Os que vão atrás dessa solução normalmente só pensam nela por ser a única que conhecem, sem parar para analisar os avanços que a ciência fez nos últimos anos. Ao invés de gastar mais recursos para se tentar remover um produto da própria sociedade, que só irá retornar de outra forma se o fizermos, porque não analisarmos a fundo a causa?
Ao analisarmos o porquê as pessoas agem desse jeito, vemos que é porque as oportunidades legais apresentadas à elas não compensam o esforço, pois as ilegais trazem muito mais lucros, que é o que importa num sistema capitalista. Assim sendo, para oferecer o mesmo nível que as ilegais retornam, as legais precisariam ter salários exorbitantes, o que iria fazer com que o sistema cada vez mais se cobrisse de dívidas, pois teriam que tirar o dinheiro de algum lugar. Desta forma, para solucionar este problema, assim como muitos outros, precisamos mudar primeiro nossa mentalidade. Precisamos ver que, por mais egoístas que somos, no longo prazo, os problemas de nossos vizinhos irão invariavelmente virar os nossos, e portanto precisamos trabalhar juntos desde o começo para que isto não aconteça. E para tirar essa barreira que separam as classes e deixar que confraternizem seus conhecimentos e experiências, assim como dar as condições para que se crie um ambiente de cooperação, adivinhem o que precisa sumir de nossas vidas?
;-)
Nenhum comentário:
Postar um comentário