quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Relembrando: Nossa Cabeça

Para finalizar o tópico sobre o modelo SCARF, que muitos usam como base para a liderança, mas que foi baseado em estudos recentes do cérebro no meio social (encontre aqui as partes 1, 2, 3 e 4), vou falar sobre a igualdade. Para começar, vamos ver porque muita gente associa este conceito com o da justiça e qual a influência disso na nossa sociedade, depois vamos analisar o que é realmente ser igual e, finalmente, de onde vem nossa propensão para procurarmos este ponto comum. Com isto, teremos um maior entendimento do porque certos aspectos de nossa sociedade estão em conflito desde seu começo, e talvez resolver estes problemas, que alguns não consideram "justos". 
Como podemos observar em seu conceito, a justiça cobre apenas alguns aspectos da igualdade, restringindo seu foco. Isto pode ser visto na ênfase em pontos de vista como direito e dever, enquanto outros como oportunidade de vida e serviço básico de infraestrutura, apesar de comentados, não possuem tanto espaço. É como o efeito visto em certas religiões ocidentais e orientais, onde a ideia passada sobre justiça tenta ser similar à igualdade, mas pode acabar parecendo outra coisa. Muitas vezes não vemos que nosso conceito de justiça, seja ele constitucional, religioso ou pessoal, é apenas um aspecto de toda a gama de comparações existentes.
Por nossa cabeça ter esta afinidade por igualdade, qualquer que seja o ponto de vista sendo analisado, existe a possibilidade de entrarmos em conflito com a justiça. E isto representa um grande problema em nossa sociedade.
Uma das influências que nossos conceitos tem na sociedade começam já na linguagem. Um exemplo clássico é quando se ouve a frase: "Não é justo alguns terem tanto e outros tão pouco." Justiça, neste caso, tem pouco a ver com o fato, já que ela se refere a direitos e deveres. Se as pessoas que tem muito conseguiram seus bens dentro da lei, a frase deveria ser "É desigual alguns terem tanto e outros tão pouco". Pode parecer que não é uma grande diferença, mas a linguagem tem sua influência na cultura. Outro exemplo mais prático, e que reflete a influência da linguagem no comportamento, é quando aparecem protestos para modificações de leis pedindo mais direitos. Direitos nada mais são do que possibilidades do que se pode fazer, não são oportunidades e muito menos igualdades. Todos termos direito à moradia não significa necessariamente que todos terão sua casa, ainda mais quando o sistema impõe que para ter seu cantinho, a pessoa precisa de dinheiro. Ou seja, antes da pessoa ter a oportunidade de ter alguma coisa na sociedade ela precisa contribuir. Mas para contribuir, ela precisa da oportunidade de ter alguma coisa, como alimentação e educação, por exemplo.
Este paradoxo é baseado em nosso equívoco de que justiça é igualdade, e de a tratarmos assim, enquanto que na verdade ela é apenas um ramo. Portanto, nosso conceito de justo não diz respeito à gama enorme que imaginamos, pois é restrito ao aspecto constitucional. Nossa cabeça, no entanto, não se restringe à este ponto de vista, e aponta constantemente nossas diferenças com outras pessoas. E, enquanto o avanço da ciência vai mostrando que nosso próprio corpo é mais igualitário do que parece, a resposta para nosso comportamento e afinidade com a semelhança pode estar no papel que os milhões de anos de evolução tiveram em nossa espécie. Afinal, para saber como chegamos no estado atual, precisamos nos habituar a viajar pela história e analisar o que nossa espécie fez pela maior parte do tempo que passou no planeta. Para aqueles que não conseguem visualizar o que isto representa para nossa espécie, Jared Diamond ilustrou bem quando escreveu: "Suponha que um arqueólogo que visitou o espaço sideral estivesse tentando explicar a história humana para outros colegas do espaço. Ele poderia ilustrar os resultados de suas escavações através de um relógio de 24 horas, onde cada hora representa 100.000 anos de intervalo de tempo. Se a história da raça humana começou à meia-noite, então nós seríamos agora quase o final do nosso primeiro dia. Nós vivemos como caçador coletor por quase todo esse dia, da meia-noite ao amanhecer, do meio-dia ao pôr-do-sol. Finalmente, às 23h:54m nós adotamos a agricultura."
Enquanto passamos milhões de anos andando pelo planeta em pequenos grupo, e que não sabíamos sua extensão ou quem eram seus residentes, nos acostumamos a achar padrões com as quais nos identificássemos para conseguirmos sobreviver. Éramos mais desconfiados pois tudo era novidade, e fomos descobrindo à duras penas ao longo do tempo que até mesmo seres fisicamente iguais a nós podiam ser traiçoeiros, se as condições se apresentassem. Nossa definição de igualdade foi, ao longo do tempo, se restringindo a certos aspectos cada vez mais limitados, pois qualquer coisa diferente ameaçava a sobrevivência da espécie. Mas paralelamente com toda esta desconfiança, fomos descobrindo também do que somos feitos e qual nossa relação com o mundo. Mesmo sem consciência do que estávamos fazendo, criamos um elo com a natureza de tal forma que nos sentimos confiantes o suficiente para tentar ficar no controle, modificando-a de acordo com nossa vontade. Mas como estamos descobrindo, não é tão fácil quanto parece, e os resultados podem ser desastrosos se não prestarmos mais atenção e continuarmos agindo como crianças mimadas.
Tivemos uma estrutura social em harmonia com nosso ambiente pela maior parte de nossa existência, onde aprendemos muito sobre ele e sobre nós, apesar de não notarmos. Apenas recentemente desviamos o caminho e, ultimamente, temos notado de uma forma mais clara as consequências deste desvio. Voltar para a estrutura antiga não é tão difícil quanto muitos presumem, nem tão perigosa. E com o conhecimento que adquirimos nos últimos milênios, podemos aprender com nossos erros, adaptando nosso progresso e nossa nova mentalidade. Estamos descobrindo que somos realmente capazes de transformar este planeta no que sempre sonhamos: um paraíso.
Basta apenas termos este objetivo.
:-)

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