quarta-feira, 16 de junho de 2010

Tinha q ser alguém mesmo!

Dentre as perguntas fundamentais que eu imagino que todas as pessoas na sociedade deveriam estar se fazendo, a que menos vejo aparecer é sobre culpa. Não sobre quem devemos culpar quando acidentes ou desastres naturais ocorrem, mas justamente sobre o porque deveríamos procurar um culpado. Na esmagadora maioria dos casos, não consigo entender como responsabilizar um ou mais indivíduos por certos fatos iriam consertar o dano causado. Apenas vejo a sede de sangue sendo apaziguada momentâneamente, pois toda estrutura judiciária de nossa sociedade, que alguns dizem ser o que nos mantém sem nos matarmos, fomenta. Enquanto mantivermos a ilusão de leis, direitos e deveres, vamos continuar sem nos perguntar essa fundamental questão, que pode redefinir o modo como vemos nossos relacionamentos. Seja entre as pessoas, ou entre elas e o mundo.
Quando somos crianças e fazemos algo que nossos pais não estão de acordo, em alguns casos sofremos repreensões mentais ou físicas. Desde um "Não" pronunciado mais alto até uns tapas e chineladas na bunda, tudo isto apenas nos faz associar nossa ação com a reação dos mais velhos. Assim, desde pequenos, passamos a respeitar uma instituição pela força que ela têm, não porque entendemos as verdadeiras consequências de nossos atos. E justamente neste momento também aprendemos a mentir, pois se temos medo do que os adultos podem fazer, iremos dar-lhes as respostas que querem ouvir para que não nos aterrorizem mais. Mesmo sem notarmos, é nesta inocente fase de nossa vida que aprendemos a procurar culpados, pois associamos atos com responsabilidades, e não com o curso natural do aprendizado que todos temos e devemos passar.
Mesmo quando acidentes acontecem onde relaxamos e tentamos aproveitar, não vemos que na maioria dos casos o fato aconteceu por negligência de toda a sociedade, não de apenas uma ou outra pessoa. Como o exemplo que Jacque Fresco adora usar, e eu considero excelente, se uma pessoa entra bêbada num carro e atropela alguém, a responsabilidade não é exclusiva dela, pois toda a comunidade permitiu que usassemos regras para tentarmos nos controlar, ao invés de colocar um simples pêndulo no carro para desligá-lo ou tirar o comando manual e passar para um automático. A mesma coisa acontece quando uma pessoa sai por ai matando, onde muitos dedos são rapidamente apontados sem se analisar que todos podem ter contribuído para que aquele indivíduo tomasse tal atitude. Manter o sistema monetário, por exemplo, sempre irá criar desigualdade social, que têm suas consequências mesmo que apenas raros consigam ver isto.E ainda que façamos nossa parte, acidentes estão fadados a acontecer. O máximo que podemos fazer é diminuir as chances, mas dificilmente iremos nos livrar completamente deles. Portanto, ficar procurando alguém para culpar é o mesmo que ficarmos perseguindo nosso próprio rabo. Mesmo que achemos alguém para responsabilizar por nossa frustação, desapontamento, raiva e tristeza, as probabilidades são de que estaremos apenas iniciando outro ciclo de rancor, que poderá voltar para nos atingir cedo ou tarde, diretamente ou na forma de acidentes.
:-)

Nenhum comentário:

Postar um comentário