quinta-feira, 6 de maio de 2010

Contribuir ou denegrir?

Desde cedo somos ensinados que, para termos direito a alguma coisa na sociedade, devemos contribuir para o seu desenvolvimento. Entretanto, são raras as vezes que paramos para notar se o que estamos fazendo faz realmente alguma coisa neste sentido. Muitas vezes, sem percebemos, estamos mais ajudando a denegrir nossa sociedade, ao invés de contribuir para ela, ainda mais quando não estamos inteiramente conscientes das consequências de nossos atos. Em alguns casos, consideramos a primeira e mais fácil (ou barata)opção sem notar que ela pode estar apenas nos oferecendo uma solução temporária, e que no longo prazo pode, inclusive, se voltar contra nós, ainda mais se nos acostumarmos com ela. É mais  ou menos como usar um balde para conter os problemas trazidos por uma goteira: ele funciona para o momento, mas logo estamos perdendo tempo correndo de um lado ao outro para esvaziá-lo pensando em como poderíamos criar uma engenhoca que fizesse nosso trabalho, quando tudo se resolveria se subíssemos no telhado e trocássemos a telha.

Embora este exemplo do balde e da goteira seja engraçado quando imaginamos a cena, a realidade é que estamos fazendo exatamente o mesmo em nossa sociedade diariamente, sem notar o quanto estamos acostumados com o "balde". E algumas dessas soluções são tão antigas, que esquecemos inclusive de olhar de onde vem a água que nos incomoda tanto, que nos faz correr de um lado para o outro sem resolver nada, gastando nossa energia e tempo com uma tarefa repetitiva e cansativa. O sistema monetário é um desses casos.
Criado nos primórdios de nossa civilização, ele apareceu para tentar igualar nossas diferenças. Era o ponto comum entre tribos e clãs completamente diferentes que queriam trocar mercadorias, mas por cada um dar valor diferente para o bem, criaram o dinheiro para resolver este problema. Por nossa espécie ter vindo de um passado de milhões de anos de desconfiança servindo como método de defesa, usamos este artifício para criar pontos comuns, que não víamos de forma clara. Mas ao invés de ser considerado uma solução temporária, até aprendermos mais sobre nosso mundo e nós mesmos, acabamos nos acostumando com ele, e agora agimos como viciados paranoicos quando apenas se sugere o fim dele na sociedade. Temos a impressão que o planeta irá acabar quando, na verdade, deveríamos estar festejando que chegamos à um nível onde podemos finalmente nos livrar de um curativo colocado à milhares de anos atrás. Com o fim do dinheiro, estaremos livres novamente para escolher se vamos continuar prestando atenção nas diferenças que temos, e permanecer como nossos antepassados das cavernas; ou se vamos olhar para os pontos comuns, trabalhando juntos para alcançarmos objetivos que todos compartilhamos, como saúde, comida e moradia, e alcançarmos níveis de desenvolvimento sonhados a muito tempo.
E por falar em trabalho, outra solução temporária com a qual se acostumamos são os empregos, criados como uma forma de sobrevivência, até construirmos a tal sociedade perfeita que todos poderiam usufruir. Mas no meio do caminho, graças ao dinheiro, tivemos uma mudança de mentalidade, preferindo o lucro rápido do que o desenvolvimento contínuo. Com isso, nos tornamos escravos de nossas próprias invenções. E o pior: temos medo de perder nossas únicas formas de sustento para as máquinas, que ironicamente são as únicas capazes de nos livrarem desse fardo e de nos levarem até a sociedade perfeita que sonhamos séculos atrás. Por não querermos abrir mão de nossos empregos, estamos nos tornando uma sociedade de prisioneiros.
Enquanto ainda mantivermos a mentalidade de preferir jogar no lixo metade da comida produzida no mundo simplesmente por dar menos gastos do que distribuir para aqueles que não tem nada, continuaremos tendo roubos, assaltos e revoltas acontecendo. Enquanto ainda tivermos lucro como principal objetivo, e não desenvolvimento, ainda teremos guerras e genocídios ao redor do mundo. Enquanto ainda dermos mais valor para a propriedade do que para as pessoas, ainda conheceremos o medo ao sair de casa e ao dormir à noite. Enquanto não soubermos a diferença entre denegrir e contribuir, vamos cada vez mais apertar os grilhões que nos prendem.
Para saber se está ajudando a sociedade é bem simples: se sua ação está beneficiando outras pessoas, independente de raça, credo, educação e, principalmente, poder aquisitivo, já é um passo no caminho certo. Caso sua ação faça alguma distinção entre as pessoas, seja poder de compra ou qualquer outra, já está se enquadrando no que mais prejudica nossa sociedade: a segregação. E precisamos cuidar com ela, pois é a maior fabricante de baldes do mundo.
:-)

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